Hoje lembrei do Srº Inácio, um daqueles pacientes inesquecíveis, na época portador de uma neoplasia. Em um dos plantões, fui realizar sua evolução. Ao me aproximar e fazer algumas perguntas e anotações ele chamou minha atenção com uma pergunta. – “Você faz mais que sua obrigação, e eu também.” Pensativa, questionei-o. – “Mas você não tem a obrigação de estar aqui, é pelo seu bem, cuidar de você próprio, da sua saúde.” Ele ergueu-se um pouco, pegou em minha mão, e com um semblante de um homem cansado, porém forte, simples, feliz perguntou-me porque eu estava com o espírito triste. Respondi que não era tristeza, e sim cansaço pelos longos plantões diários. Com uma risada pura e límpida, sem maldades, me falou: “É, eu sei como é. Quando tinha sua idade também era assim. Cansado. Nunca era triste nas palavras. Mas eu tinha em mente que felicidade era ter uma família, um carro novo, um apartamento, uma carreira de sucesso, uma remuneração invejável e amigos fictícios. Esperei até os 35 anos para realmente dizer que era feliz. Quando cheguei aos 30 percebi que minhas conquistas estavam no caminho certo, mas que nada mudou. Então.. estou aqui, numa cama de hospital, prestes a ir embora. Eu que sempre pensei que ia ser feliz depois das conquistas, e onde foram parar elas nessa hora? Porque estou aqui, infeliz. Cadê essa felicidade toda? Daí foi quando enxerguei, mergulhado nas lembranças, que eu era sim muito feliz. Mas porque deixei pra enxergar isso quando estou na porta da casa da vida, numa partida sem volta? Bom.. pensamos a vida toda em buscar a felicidade nas materialidades do mundo e nas pessoas, mas já a temos. A hora de ser feliz é no momento em que se nasce até a hora da partida. É agora. Sem pena. Sem rancor. Viver cada momento, cada fase, cada relação, cada conquista, cada saída. Eu queria sim uma família perfeita, um carro novinho na garagem, uma vida de cinema. Mas hoje eu vejo que sou muito feliz com aquele meu irmão egoísta, com aquele pai duro, com aquela mãe incompreensível, com aquela namorada fria que hoje é minha mulher e que faz tudo por mim e com aquele cachorro treloso. Não faça como eu, que fui tão bobo e insistente num ponto de referência que tapava a minha visão do outro lado, do que realmente eu deveria ter enxergado. A felicidade é agora, viva ela, sinta ela, tenha ela como motivo maior em sua vida. Não deixe esse espírito triste te fazer perder mais um minuto sequer de sua felicidade. Tudo que vai, volta. A vida é um ciclo, e não pára. Não pára, e é irreversível. Você só vai correr em vão. Não corra. Ande devagar para aproveitar o sabor gostoso da vida. Não deixe que as pessoas e os bens materiais sejam o estopim de sua vida. Não permita que ninguém tire esse seu direito do prazer de se estar aqui, de ser você. Recupere seu espírito, renove-o, ele precisa de mais cuidados que eu. Obrigado por prolongar um restinho da minha vida, você fez parte do meu ciclo.” Soltou-me a mão. E sem uma palavra sequer voltei à sala de evolução. No dia seguinte soube a noticia, seu Inácio teve uma complicação à noite o que levou ao seu falecimento.
É com todo o carinho que desejo a todos um feliz ano novo. Mas que esse ano que está ai na portinha seja um ano bem aproveitado, cada minuto, cada segundo... sendo assim feliz. Vamos enxergar no espectro de seu Inácio e, com isso, fazer tudo valer a pena.
Beijos.
Izabella D’Paulo.
